10 Tendências Que Os Hipsters Acharam Que Inventaram (Mas Não)

10 Tendências Hipsters Que Eles Julgam Ter Inventado

Os hipsters, com o seu ar de desinteresse estudado e o seu gosto por tudo o que é “autêntico” e “alternativo”, são muitas vezes creditados (ou dão-se o crédito) pela invenção de um sem-número de tendências. No entanto, uma análise mais atenta revela que grande parte do que consideram original já existia muito antes de eles começarem a usar gorros de lã no verão. Esta subcultura urbana, que valoriza o nicho e o pré-curado, muitas vezes redescobre e reintroduz conceitos antigos, embrulhando-os como novidade. É quase como se tivessem descoberto a pólvora, para depois insistirem que são os únicos a saber usar um isqueiro.

A verdade é que as tendências são cíclicas. O que antes era comum, depois cai em desuso e, eventualmente, ressurge, muitas vezes com um novo rótulo e um público novo. Os hipsters são mestres nesta arte da reciclagem cultural, transformando o “velho” em “vintage” ou “retro”. Mas será que eles realmente inventaram o vinil ou o café de especialidade? Ou será que apenas o popularizaram junto de uma nova geração? Este artigo desvenda as 10 tendências que os hipsters, para sua própria surpresa, não inventaram. Prepare-se para desmistificar algumas das suas certezas mais arraigadas e, quem sabe, rir um pouco pelo caminho.

Moda Vintage e Retro

A obsessão por roupas e acessórios que parecem ter vindo diretamente de um baú da avó é um pilar da estética hipster. No entanto, a moda vintage e retro existe há décadas. Muito antes dos hipsters sonharem em usar óculos de massa grossa e bigodes cuidados, pessoas com consciência ambiental e um orçamento limitado compravam em lojas em segunda mão. Além disso, a moda sempre olhou para o passado em busca de inspiração. Os anos 20 influenciaram os anos 60, os anos 70 voltaram nos anos 90, e assim sucessivamente. O que os hipsters fizeram foi elevar a compra em segunda mão a uma declaração de estilo e a um estilo de vida.

Café de Especialidade

O amor por cafés de grão único, moídos na hora, com métodos de extração que parecem rituais complexos, é quase um requisito para ser hipster. No entanto, o café de qualidade superior e com origens específicas não é uma invenção recente. Os cafés europeus já no século XIX eram conhecidos pela atenção aos detalhes na preparação. A “terceira onda do café”, que os hipsters abraçaram, tem raízes em movimentos anteriores que valorizavam a arte da cafeicultura. Os italianos, por exemplo, têm uma cultura de café profundamente enraizada e sofisticada há séculos, o que desmente qualquer ideia de que o “bom café” seja uma ideia recente.

Cerveja Artesanal

As cervejas com nomes estranhos, rótulos artísticos e sabores exóticos são um must-have em qualquer reunião hipster. No entanto, a cerveja artesanal é tão velha quanto a própria cerveja. Antes da industrialização, toda a cerveja era fabricada em pequena escala e com receitas locais. Os monges medievais eram mestres na arte da cervejaria, e muitas das suas técnicas ainda são reverenciadas hoje. O movimento da cerveja artesanal moderna nos EUA começou nos anos 70 e 80, muito antes da popularidade hipster explodir, impulsionado por entusiastas que queriam escapar das grandes marcas.

Discos de Vinil

O regresso triunfante dos discos de vinil foi grandemente associado à cultura hipster. Mas o vinil nunca desapareceu por completo. DJs, audiófilos e colecionadores continuaram a manter viva a chama do formato analógico mesmo nos dias do CD e da música digital. O vinil foi o principal formato de música durante grande parte do século XX. O que os hipsters fizeram foi torná-lo cool e comercialmente viável para uma nova geração, valorizando a experiência tátil e a qualidade do som que, para muitos, é superior.

Alimentos Orgânicos e Locais

Comer “da terra”, apoiar produtores locais e optar por alimentos orgânicos é um estilo de vida hipster. No entanto, antes da globalização e da agricultura industrial, toda a gente comia alimentos orgânicos e locais. Era a norma. A agricultura orgânica moderna começou a ganhar força nos anos 40 e 50, como uma resposta aos pesticidas e fertilizantes químicos. O movimento “farm-to-table” e o apoio aos mercados de agricultores são práticas antigas, revigoradas por uma nova consciência ambiental e de saúde.

Bicicletas Fixas e Ciclismo Urbano

As bicicletas de pinhão fixo, ou “fixies”, eram vistas como o auge do ciclismo urbano hipster. No entanto, as bicicletas sem sistema de marchas são as primeiras bicicletas que existiram. As bicicletas de pista, usadas em velódromos, são desenhadas para serem leves e eficientes, sem complicação de marchas. O ciclismo como meio de transporte urbano também é uma prática secular em muitas cidades europeias, muito antes de “bicicleta” se tornar sinónimo de “hipster”. O que a cultura hipster fez foi dar-lhe um toque de cool urbano.

Bigodes e Barbas Elaboradas

Os bigodes retorcidos e as barbas densas e cuidadas são um dos traços visuais mais distintivos do estereótipo hipster. No entanto, os bigodes elaborados e as barbas são um símbolo de virilidade e estilo há séculos. Desde os vikings aos monarcas europeus, passando pelos dandies do século XIX e pelos militares do século XX, o pelo facial sempre foi uma forma de expressão. Os hipsters apenas trouxeram de volta e popularizaram estilos que já existiam em álbuns de fotografia antigos e em pinturas clássicas.

Óculos com Armações Grossas

Os óculos de armação grossa, muitas vezes para melhorar a visão e a estética, são um acessório emblemático. Mas este estilo tem uma longa história. Era popular nas décadas de 50 e 60, usado por intelectuais, artistas e estrelas de cinema. Pense em Buddy Holly ou Audrey Hepburn. A estética “nerd chic” existe há muito tempo, e os hipsters trouxeram-na de volta com um ar de intencionalidade. Não inventaram o conceito, apenas o reciclaram.

Artesanato e “Faça Você Mesmo” (DIY)

A valorização do artesanal, do feito à mão e do “faça você mesmo” é uma das marcas da cultura hipster. Mas antes da produção em massa, todo o mundo era “feito à mão”. As pessoas teciam as suas próprias roupas, construíam os seus próprios móveis e reparavam os seus próprios objetos. O movimento Arts and Crafts no final do século XIX, por exemplo, foi uma reação à industrialização e à perda do valor artesanal. Os hipsters abraçaram esta filosofia como uma forma de protestar contra o consumismo e a massificação.

Música Indie e Géneros Nicho

A exploração de bandas desconhecidas, de géneros musicais obscuros e de artistas “alternativos” é uma paixão hipster. No entanto, a música “independente” sempre existiu. Pequenas editoras, artistas que se auto-produziam e géneros que fogem do mainstream sempre foram parte do panorama musical. O termo “indie” tem quase 40 anos, surgindo nos anos 80 para descrever bandas que não tinham o apoio de grandes editoras. Os hipsters ajudaram a catapultar alguns destes artistas para um público mais vasto, mas a sua existência não é uma novidade.

A cultura hipster, embora muitas vezes ridicularizada pela sua pretensão de originalidade, desempenha um papel interessante na constante evolução das tendências culturais. Ao desenterrar e recontextualizar elementos do passado, eles ajudam a manter viva uma série de práticas e estéticas que, de outra forma, poderiam cair no esquecimento. No entanto, é crucial reconhecer que, na maioria dos casos, não são os inventores, mas sim os redescobridores. A sua paixão pelo que é “autêntico” e “não comercial” é, ironicamente, o que muitas vezes o torna comercial e mainstream. Mas, independentemente de quem os inventou, estas tendências enriquecem o nosso dia a dia, desde a bebida que tomamos ao vestuário que escolhemos. No fim de contas, o que importa é a apreciação e a celebração da cultura, independentemente de quem decide que é cool.

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